Quando o vento de liberdade embalou o berço Schurmann

Uma mesma história pode ser contada de diferentes formas, sem que uma esteja necessariamente certa e a outra, errada. Basta olhar diferente. Há mais de 30 anos, a Família Schurmann decidiu trocar a terra firme pela liberdade do mar, seguindo para onde os ventos levarem. Na grande maioria das vezes, a história da primeira família brasileira a dar a volta ao mundo a bordo de um veleiro é contada a partir da experiência do Capitão Vilfredo e da Heloisa Schurmann. Com todo respeito e admiração ao casal, nós decidimos recontar essa história de uma maneira diferente…

David nasceu em Santa Catarina. Filho de um economista e uma professora, chegou ao mundo tendo apenas um irmão, Pierre. Com apenas oito meses de vida, ele se separou – temporariamente – dos pais. Ficou com o irmão e a avó materna, enquanto seus pais curtiam umas férias no Caribe. Quando eles retornaram, trouxeram de presente um sonho inusitado: uma viagem em família, ao redor do planeta e a bordo do próprio veleiro. Antes mesmo de caminhar com as próprias pernas e a tagarelar pelos quatro cantos da casa, David Schurmann já era embalado pelo sopro dos ventos. O sopro da liberdade.

Determinados, Vilfredo e Heloisa elegeram uma data especial para a realização daquele sonho. Eles se preparariam por dez anos para içarem as velas no aniversário de 10 anos de David. “Eles fizeram uma lavagem cerebral em mim desde pequeno. Já estávamos esperando esse tipo de vida”, brinca, aos risos, o velejador e cineasta da família. Assim, a infância de David e seus irmãos – sim, a família cresceu com a chegada do caçula Wilhelm – contava com “brincadeiras” constantes a bordo até chegar a hora de mudarem, de fato, para dentro de um veleiro. Como seu aniversário de 10 anos caiu numa sexta-feira 13, David, seus pais e irmãos içaram as velas no dia seguinte, ou seja, em 14 de abril de 1984.

“Quando fizemos a primeira expedição, o único entretenimento que nós tínhamos era o cinema. Havia salas em todas as cidades onde parávamos. À noite, eu e meu irmão pegávamos o bote até a vila para ir ao cinema. Eu amava aquilo: a luz apagava e eu podia entrar em outros mundos. Aos poucos, as pessoas começaram a me dizer que a minha vida daria um filme”, lembra. “Sempre gostei de contar histórias. Decidi que queria contar as minhas histórias e, quando tinha 13 anos, convenci meus pais a me dar de aniversário uma câmera. Não tínhamos muitos recursos na época, mas quando chegamos ao Panamá, um porto livre onde as coisas são mais baratas, ganhei minha primeira câmera 8mm. Filmei documentários enquanto navegava pelo mundo, como a travessia pelo Canal do Panamá, e pequenos curtas usando meu irmão mais novo como ator”, conta.

O mundo sem fronteiras “afastou” David e seus irmãos da sala de aula e metodologias de ensino tradicionais. Professora, Heloisa assumiu a profissão a bordo adotando um sistema reconhecido de ensino a distância. “Eu não sabia que estudar poderia ser algo interessante e legal. Com o passar dos anos, meus pais estimularam muito nossa curiosidade e passamos a estudar mais e mais, sem saber que aquilo era estudar. Uma vez, por exemplo, aprendemos sobre Geologia e Geografia sentados em um vulcão na Martinica”, lembra.

Cinco anos depois de partir do Brasil para viver no veleiro, o jovem desembarcou Nova Zelândia para dar continuidade aos estudos e cursar Cinema. Pierre tinha já ficado nos Estados Unidos para o ensino superior. Wilhem permaneceu a bordo, continuando seus estudos com Heloisa durante os demais cinco anos de viagem para completarem a primeira volta ao mundo. “Assim que me formei, comecei a trabalhar com 19 anos como diretor de um programa de TV, uma revista eletrônica de um canal neozelandês. Na época, o dinheiro que ganhava financiava meus curtas-metragens 16mm”, diz David.

Três anos depois, ele estava de volta ao veleiro Aysso, ao lado de seus pais e a mais nova tripulante da família: a doce e corajosa Kat. A bordo, assumiu a direção das filmagens da Magalhães Global Adventure, segunda circum-navegação dos Schurmann, que virou atração do Fantástico, programa da TV Globo. “Foi bacana ter a companhia de Kat, uma criança com um olhar que nunca deixava as coisas ficarem sérias demais”, recorda. Depois de quase dois anos e meio no mar, a tripulação chegou a Porto Seguro, na Bahia, no dia 22 de abril de 2000, para participar das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, sendo recebido pelos então presidentes do Brasil e de Portugal, imprensa internacional e cerca de 3 mil pessoas.

Na sequência, David voltou a viver no Brasil e lançou, mundialmente, seu primeiro documentário longa-metragem, “O Mundo em Duas Voltas” – filme que conquistou alguns prêmios internacionais. Mas para o cineasta, ainda faltava encarar um desafio diferente. “Sempre quis experimentar o mundo da ficção e fiz meu primeiro experimento com um projeto transmídia de documentário de ficção, chamado ‘Desaparecidos’. E, nessa mesma época, comecei a desenvolver ‘Pequeno Segredo’, que marca minha entrada definitiva nos filmes de ficção – sem apagar minha carreira de documentarista que me orgulha muito”, diz o cineasta.

Neste momento, David está envolvido em alguns projetos audiovisuais, entre eles, a pós-produção do “U-513: Em Busca do Lobo Solitário”, longa sobre o único submarino alemão da Segunda Guerra Mundial, encontrado na costa de Santa Catarina pela Família Schurmann. Paralelamente, dedica-se – ao lado da família – ao planejamento da próxima expedição. “Serão cerca de 2 anos e 9 meses a bordo, dando a volta ao mundo em um projeto focado em inovação e sustentabilidade. Já testemunhamos muitas mazelas causadas pelo consumo exagerado, o descarte irresponsável, o aquecimento global etc. O planeta pede socorro! Vamos atrás de inspirações e soluções que recuperem nossas águas, salvem às espécies e possibilitem um futuro melhor para as próximas gerações”, adianta.

E, assim, David e a Família Schurmann seguem percorrendo o mundo, em buscando, encontrando, conhecendo e revelando diferentes olhares.

Segredo revelado

“Somos uma família como qualquer outra, que também tem suas brigas e discussões. Não somos uma família margarina. Mas sabemos lidar com as diferenças. Sabemos brigar, bater na mesa, mas depois terminamos abraçados”, conta David. Como toda família “normal”, os Schurmann também têm – ou tinham – seu “segredo de família”. E foi a partir do olhar dele, que o mundo descobriu e se emocionou com uma história, muito particular, de amor incondicional.

“Durante a primeira volta ao mundo, na Nova Zelândia, conhecemos a brasileira Jeanne e o neozelandês Robert, pais biológicos de Kat. A partir de uma transfusão de sangue, os três acabaram infectados com o vírus do HIV. Jeanne já havia falecido quando Robert revelou toda a história e fez o convite para os meus pais adotarem a Kat”, lembra. E completa: “naquela época, anos 1990, o mundo ainda não entendia direito o que era o HIV, AIDS etc. Esse era um assunto cercado de preconceito. Para que Kat pudesse ter uma vida normal, mantivemos essa história em segredo”.

Quando Kat estava perto de completar 13 anos, ela mesma decidiu revelar sua doença, pois passou a se incomodar ao ouvir piadas de aidéticos. “Ela não sabia exatamente o que tinha até uns 11 anos. Minha mãe sempre falou que era uma doença complicada, uma espécie de hepatite B, que seu sangue não podia tocar nas pessoas e que ela precisava tomar inúmeras vitaminas, que era como a gente chamava os remédios”, explica. “Até que teve um momento de rebelião, porque ela não se desenvolvia como as outras meninas. Foi quando Kat exigiu saber a verdade”, recorda.

Apesar do primeiro “diagnóstico” pessimista que um médico arriscou apontar para os Schurmann, Kat bateu recordes de sobrevida para crianças nascidas com HIV naquela época e que, infelizmente, não costumavam ir além dos 6 anos. Doce e esperta, ela deu a volta ao mundo com os pais e o irmão David, vivendo aventuras que muitos de nós ainda não vivenciamos. Até que perto de completar 14 anos, partiu. “Sua morte foi inesperada. Com ela firme e os remédios desenvolvidos, achamos que continuaria crescendo e… Então, ela pegou uma pneumonia e faleceu em menos de uma semana”, recorda. “Foi o pior momento na vida da nossa família. Kat era o nosso sol! E quando se tira o sol, os planetas se perdem”, completa.

Dentro do processo de luto, Heloisa começou a escrever as histórias e lembranças vividas com Kat. Ao ler o material, David encorajou a mãe a publicar o livro “Pequeno Segredo”, best-seller que vem inspirando muitas pessoas. Paralelamente, David sempre acreditou que a história da irmã deveria ser levada às telas de cinema para seguir um desejo da própria Kat: revelar sua história e, assim, lutar contra o preconceito. Inspirado nos mesmos fatos reais, mas sem ser uma adaptação do livro, o filme “Pequeno Segredo” vem emocionando e conquistando o público nacional e de outros lugares do mundo, como Estados Unidos, Líbano e Rússia.

Eleito para representar o Brasil no Oscar, recentemente, “Pequeno Segredo” conquistou o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular do 21º Brazilian Film Festival of Miami e consagrou-se na categoria Melhor Efeito Visual do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

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